Trechos inesquecíveis – Judith Butler

“O reconhecimento não pode ser reduzido à formulação e à emissão de juízos sobre os outros. Indiscutivelmente, há situações éticas e legais em que esses juízos devem ser feitos. No entanto, não deveríamos concluir que a determinação legal da culpa ou da inocência seja o mesmo que reconhecimento social. Na verdade, o reconhecimento muitas vezes nos obriga a suspender o juízo para podermos apreender o outro. Muitas vezes nos baseamos em juízos de culpa ou inocência para resumir a vida do outro, confundindo postura ética com aquele que julga. Em que medida a cena do reconhecimento é pressuposta pelo ato de julgar? O reconhecimento fornece um quadro mais amplo dentro do qual é possível avaliar o próprio juízo moral? Ainda é possível fazer a pergunta: ‘Qual o valor do juízo moral?’ (…). A pergunta pressupõe que se a moral tem um valor, ele é encontrado fora da própria moral; trata-se de um valor extramoral pelo qual avaliamos a moral, afirmando, desse modo, que a moral não abarca exaustivamente o campo dos valores.

A cena do juízo moral, quando se julgam as pessoas por serem quem são, estabelece invariavelmente uma distância moral clara entre quem julga e quem é julgado. No entanto, as coisas ficam mais complicadas quando levamos em conta a pergunta de Simone de Beauvoir: ‘Deve-se queimar Sade?’. Talvez somente pela experiência do outro, sob a condição de termos suspendido o juízo, tornamo-nos finalmente capazes de uma reflexão ética sobre a humanidade do outro, mesmo quando o outro busca aniquilar a humanidade. Embora decerto eu não diga que jamais devamos julgar – os juízos são imperativa e igualmente necessários para a vida política, jurídica e pessoal –, acredito que seja importante, ao repensar os termos culturais da ética, lembrarmo-nos de que nem todas as relações éticas são redutíveis a atos de juízo, e que a própria capacidade de julgar pressupõe uma relação prévia entre quem julga e quem é julgado. A capacidade de realizar e justificar juízos morais não esgota a esfera da ética e não coincide com a obrigação ética ou da relacionalidade ética. Além disso, o juízo, por mais importante que seja, não pode ser considerado uma teoria do reconhecimento; com efeito, podemos muito bem julgar o outro sem reconhecê-lo em absoluto.

Antes de julgar o outro, devemos ter algum tipo de relação com ele. Tal relação vai fundar e fundamentar os juízos éticos que finalmente fizermos. De alguma maneira, teremos de fazer a pergunta: ‘Quem és?’. Se nos esquecemos de que estamos relacionados àqueles que condenamos, mesmo que devamos condená-los, perdemos a chance de ser eticamente educados ou ‘interpelados’ pela consideração de quem são e o que sua individualidade diz acerca da gama de possibilidades humanas existentes, e ainda de nos preparar contra ou a favor dessas possibilidades. Também nos esquecemos de que julgar o outro é um modo de interpelação: até mesmo as punições são declaradas, muitas vezes transmitidas, diante do outro, exigindo sua presença física. Logo, se existe alguma ética na interpelação, e se o juízo, incluindo o juízo legal, é uma forma de interpelação, então o valor ético do juízo será condicionado pela forma de interpelação que assume.

Considere que, quando suspendemos o juízo, realizamos um tipo de reflexão que possibilita uma maneira de nos tornarmos responsáveis e de conhecermos a nós mesmos. A condenação, a acusação (…) são formas rápidas de postular uma diferença ontológica entre juiz e julgado, e ainda de se expurgar do outro. A condenação torna-se o modo pelo qual estabelecemos o outro como irreconhecível ou rejeitamos algum aspecto de nós mesmos que depositamos no outro, que depois condenamos. (…) A condenação tende a fazer justamente isso, expurgar e exteriorizar a nossa própria opacidade. Nesse sentido, o juízo pode ser uma forma de não correspondermos às nossas próprias limitações, e por isso não constitui uma base apropriada para o reconhecimento recíproco dos seres humanos como opacos para si mesmos, parcialmente cegos, constitutivamente limitados.”

 

(Judith Butler. Relatar a si mesmo: crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2015; págs. 63-66)

 

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