Trechos inesquecíveis – David Johnston

“Novas formas de conceber a justiça surgiram no século XIX porque as percepções da esfera do mundo social, e do impacto que a atividade humana é capaz de ter sobre esse mundo, haviam mudado. Hobbes, Hume e muitos outros já haviam retratado essa esfera como um produto das ações humanas, em vez de uma paisagem moldada exclusivamente pela mão da natureza. Por volta do início do século XIX, esse retrato estava mais nítido que antes. Muitos pensadores adotaram o ponto de vista de que aspectos importantes da esfera social – incluindo estruturas sociais e institucionais que condenavam grandes parcelas da população a uma vida insegura e frequentemente miserável e, muitas vezes, a uma morte prematura – são produto de ações, convenções e instituições que poderiam ser reformadas ou subvertidas e substituídas por meio de esforços humanos. Quiçá pela primeira vez na história, começou a parecer verdadeiramente possível (ao menos para alguns observadores) refazer o sistema político e a sociedade a partir do zero. Um elemento que ajudou a produzir essa mudança de percepção foi o fluxo constante de inovações tecnológicas que alteraram os contornos da vida econômica e social da Grã-Bretanha e da Europa entre o início do século XVIII e o início do século XIX. A invenção de instrumentos de precisão para marcar o tempo, o rápido progresso da navegação resultante (que teve consequências importantes para o comércio internacional), a locomotiva a vapor e o tear mecânico estavam entre os muitos acontecimentos que ajudaram a remodelar a vida econômica e social da maioria das pessoas comuns da época. Era como se as descobertas científicas que tinham começado a brotar de forma emblemática pelas leis da mecânica de Newton, houvessem lançado os alicerces para que os seres humanos subjugassem e controlassem a natureza, bem do modo que Francis bacon profetizara. Sem muita dificuldade, o raciocínio deduziu que, se podemos induzir a natureza a obedecer a nossas ordens, por que a sociedade humana – da qual, afinal de contas, somos os criadores – não poderia ser levada a fazer o mesmo?

Entretanto, o segundo e talvez mais decisivo elemento que influenciou as hipóteses sobre as perspectivas de transformação social foi a Revolução Francesa, que teve início em 1789 e terminou em meados da década de 1790. Diferentemente da Revolução Americana ocorrida pouco mais de uma década antes, a Revolução Francesa era considerada por muitos de seus principais defensores –  assim como por seus oponentes – um rompimento radical com o passado, um acontecimento apocalíptico que buscava refundar o sistema político e a sociedade da França sobre princípios inteiramente novos. A revolução teve um impacto enorme na visão política e social de um grande número de observadores, mesmo que suas consequências práticas, como Alexis de Tocqueville deu a entender duas ou três gerações mais tarde, fossem menos dramáticas do que pareciam na época. Se a revolução científica e tecnológica dos séculos XVII e XVIII havia lançado as bases para uma nova consciência das possibilidades de transformação social, a Revolução Francesa completou a transição para um novo conjunto de percepções.

Escrevendo em 1814 junto com seu secretário e colaborador Augustin Thierry, Henri de Saint-Simon demonstrava essa percepção com a proposta profética de reorganizar a comunidade europeia:

A ordem social foi subvertida porque não corresponde mais ao nível educacional; cabe a vocês criar uma ordem mais avançada. A nação foi dissolvida; cabe a vocês reconstruí-la.

‘Subvertida’ e ‘dissolvida’, ‘criar’ e ‘reconstruir’: os termos que Saint-Simon e Thierry escolhem para argumentar indicam que uma dramática transformação social não era apenas possível, mas inevitável, em razão do colapso da velha ordem.”

 

(David Johnston. Breve história da justiça. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2018; págs. 203-205)

Publicado por

pablodiasfortes

Graduado em Filosofia (UFRJ), Mestre em Educação (UFRJ) e Doutor em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva - PPGBIOS (FIOCRUZ). Desde 2006 integra o corpo de servidores da carreira de desenvolvimento tecnológico da FIOCRUZ, realizando atualmente atividades de investigação e ensino no âmbito do Departamento de Direitos Humanos, Saúde e Diversidade Cultural (DIHS/ENSP/FIOCRUZ), com foco em estudos sobre ética e justiça em saúde. É docente e coordenador do Programa de Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva - PPGBIOS (FIOCRUZ), e membro do GT de Bioética da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO)

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