Trechos inesquecíveis – Lewis R. Gordon

“Se a razão for afirmada como uma localização geopolítica específica, o surgimento de outro local da razão poderia criar uma mudança sísmica. Isso poderia ocorrer como uma deslegitimação da razão inicialmente apresentada como, paradoxalmente, irracional. Ou pode ocorrer através da particularização desse motivo como um entre outros. Se a manifestação inicial da razão só pode se sustentar como razão em si mesma, a mera ideia de diferentes tipos de razão desfaria sua hegemonia.

Há outra consideração. Pode-se criar uma mudança na geografia da razão suspendendo-a teleologicamente. Por suspensão teleológica, entendo o paradoxo de estar disposto a ir além da razão inicialmente declarada para o “golpe de razão”. Como a razão pode ir além de si mesma por causa da razão, a descolonialidade pode ser semelhante. Os pensadores descoloniais devem, desse ponto de vista, ir além da descolonialidade em prol da descolonialidade. A teórica descolonial Catherine Walsh articula essa consideração como “descolonialidade para”. Ela, com efeito, defende a mudança da geografia da legitimidade na qual a razão só poderia vir de modelos coloniais de poder e pensamento. Em certo sentido, ela exemplifica uma afirmação genealógica pós-estruturalista rearticulada. Em outra – dada a teleologia implícita “para”, embora não na temida grande forma narrativa – ela o transcende.

Essa consideração da descolonialidade autotranscendente levanta um problema importante do que se segue quando a descolonialidade se torna um objetivo em vez de um meio. Sem pensar sobre para que serve a descolonialidade, ela se torna um fetiche e desmorona em padrões familiares de religiosidade, idolatria e seus investimentos moralistas acompanhantes. Por exemplo, fetichismo e moralismo apelam para modelos de pureza. Isso significa, com efeito, a eliminação de tudo o que não é consistente com os sistemas preferidos ou declarados ou aqueles que os incorporam. O efeito é uma forma de puritanismo que transforma a purificação em um ideal moral. Este objetivo de descolonização leva a que ninguém seja descolonizado o suficiente, exceto, talvez, aquele que coloca o problema da descolonização, sendo a descolonização seu compromisso mais puro. Essa pessoa enfrenta a possibilidade de não ter sido descolonizada, o que levanta o problema da origem dos problemas de descolonização. Essa busca interior se afasta das condições políticas dos problemas políticos – porque a política é muito confusa para servir como critério puro – e se move em direção a uma busca pela subordinação moral da vida política. O fato de esse moralismo resultante ser compatível com o neoliberalismo, que privilegia o indivíduo moral sobre os sujeitos políticos, de fato deixa intactas as desigualdades estruturais.

Tomemos, por exemplo, discussões moralistas sobre racismo. O foco no “privilégio” e na descolonização de si mesmo muitas vezes assume a forma de autorrepúdio moral. Eventualmente, qualquer coisa que alguém tenha e que outra pessoa não tenha se torna um privilégio, sem questionar se o que é possuído é algo que os outros deveriam ter. Quando os direitos a recursos como água potável, alimentação, educação, segurança pública e justiça se tornam “privilégios”, o que uma pessoa razoável deve fazer? Ela deveria desistir disso?

A infeliz resposta muitas vezes é uma efusão de culpa, por meio da qual o “desprivilegiado” a quem é devotado experimenta o sentimento afetivo de poder na forma de superioridade moral. Posteriormente, tanto os privilegiados quanto os destituídos retornam às suas condições materiais relativamente desiguais em uma sociedade que permanece estruturalmente intacta, quando uma resposta adequada deveria ser tornar o acesso a tais recursos universal. Os defensores do neoliberalismo preferem (…) a crítica do modelo de privilégio, uma vez que empurraria esses recursos para fora do reino dos direitos e, assim, abriria a porta para expandir sua dissolução na forma mais familiar de privação. Oculto nessa exibição está uma verdade básica: os problemas políticos requerem soluções políticas, não moralistas.”

(Lewis R. Gordon. Freedom, Justice, and Decolonization. New York: Routledge, 2021; págs. 15-17)  

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