Por que assombra a luz…

O que mais me espanta em análises que pagam ilimitados tributos a Nietzsche e a Foucault é a posição sempre mal explicada de um julgamento, ele mesmo, curiosamente imune ao império histórico da “imanência”. O espanto decorre daquilo que Habermas classificou como uma “aporia”, uma vez que tomar as relações de poder como último refúgio explicativo do ordenamento social parece não levar em conta por qual brecha da história o pobre e iludido “sujeito” teria finalmente como saber o que há por trás da enganosa máscara da moral. Tudo isso digo pensando na enorme falta que faz uma boa antropologia filosófica quando se trata de explorarmos o fenômeno do vínculo político articulado ao problema da legitimidade. Continuo sinceramente convencido de que qualquer grito por justiça guarda suficiente “consciência de si” para fazê-lo também suspeitar de que se trata mais do que um mero “sintoma discursivo” (sem cair, por sua vez, na tentação de um hegelianismo abstrato). Presumir-se “moralmente imputável” não torna alguém, afinal, o produto de um embuste ontológico ou metafísico (indignar-se é também se mostrar já disponível para responder por suas ações!), pois é disso mesmo que se alimenta o jogo perverso das instituições e suas “tecnologias” cada vez mais dissimuladas de persuasão e controle. Um mundo cuja história jamais conheceu a paz está mais propenso a justificar a guerra do que dar as mãos ao ceticismo, ainda que isso custe, paradoxalmente, uma grande dose de cinismo. Nesse sentido, a causa do assim chamado “fracasso da modernidade” não é menos o produto de uma retórica conservadora do que a ideia de um eventual “fim da história”. No final das contas, é essa mesma retórica que introduz a desconfiança generalizada acerca de toda pretensão normativa erguida sob o signo do ideário iluminista. Claro: é preciso conservar, acima de tudo, a velha “autonomia crítica”… Visto então dessa perspectiva, acredito que o maior desafio da esquerda nestes tempos bicudos consiste em abandonar o tom excessivamente belicoso com que costuma encarar também a disputa por hegemonia. Se o que está em questão é a maneira pela qual diferentes indivíduos devem assumir um compromisso com a expansão das relações de reconhecimento, então não parece muito promissora a ideia de transformar a luta contra a opressão no “partido clandestino do ressentimento”. Ninguém será facilmente seduzido a confrontar seus “privilégios” tendo unicamente à frente do espelho a imagem de sua monstruosidade. Como lembra Judith Butler, nenhuma interpelação é tão precisa ao ponto de tornar o relato de um “eu” completamente transparente para ele mesmo – embora seja isso, precisamente, o que lhe garante um senso de justiça. É aqui que começa, portanto, o verdadeiro problema da legitimidade. Esvaziá-lo de um “caráter moral” é condenar justamente ao abismo o que torna possível o diálogo. Queiramos ou não, ninguém está livre da lei implacável da reciprocidade, sobretudo quando se trata de fazê-la operar em benefício do próprio sossego mútuo. Enterrado no túmulo das genealogias “lacradoras”, aí mesmo é que sujeito algum terá motivos para repousar o seu inflamável e irrequieto espírito.

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