Trechos Inesquecíveis – David Hume

“Seria um empreendimento supérfluo provar que a justiça é útil à sociedade e, consequentemente, que parte do seu mérito, pelo menos, deve originar-se dessa consideração. Mas a afirmação de que a utilidade pública é a única origem da justiça e que as reflexões sobre as consequências benéficas dessa virtude são a única fundação do seu mérito, sendo uma proposta mais inusitada e significativa, é mais merecedora de nosso exame e investigação.

Suponhamos que a natureza houvesse dotado a raça humana de uma tamanha abundância de todas as conveniências exteriores que, sem qualquer incerteza quanto ao resultado final, sem qualquer atenção ou dedicação de nossa parte, todo indivíduo se achasse completamente provido de tudo aquilo que seus mais vorazes apetites pudessem necessitar, ou sua faustosa imaginação pudesse pretender ou desejar. Sua beleza natural, vamos supor, ultrapassaria todos os ornamentos adquiridos, a perpétua suavidade das estações tornaria inúteis todas as roupas ou abrigos, as verduras ao natural proporcionar-lhe-iam o mais delicioso alimento, e a límpida fonte, a bebida mais excelente. Nenhuma tarefa laboriosa seria requerida, nenhuma lavoura, nenhuma navegação. Música, poesia e contemplação constituiriam sua única ocupação; conversas, risos e convivência com amigos, sua única diversão.

Parece óbvio que, em uma condição tão afortunada, todas as demais virtudes sociais iriam florescer e intensificar-se dez vezes mais; mas, quanto à cautelosa e desconfiada virtude da justiça, dela não se ouviria falar uma vez sequer. Pois qual seria o propósito de efetuar uma repartição de bens quando cada um já tem mais do que o suficiente? Para que fazer surgir a propriedade quando é impossível causar prejuízo a quem quer que seja? Por que dizer que esse objeto é meu quando, caso alguém dele se apodere, basta-me esticar a mão para apropriar-me de outro de valor igual? A justiça, nessa situação, sendo completamente inútil, não passaria de um vão cerimonial e não poderia jamais obter um lugar no catálogo das virtudes.”

(David Hume. Uma investigação sobre os princípios da moral. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013; págs. 35-36)

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