O homem na multidão de Isabel Wilkerson

Essa breve reflexão abaixo da jornalista Isabel Wilkerson resume tudo que a gente precisa saber sobre moralidade. Ela explica por que razão o nosso senso de justiça deve ir além das recompensas afetivas que obtemos pela fidelidade demonstrada aos grupos aos quais pertencemos. Pois a “lógica grupal” costuma ser também uma enorme porta fechada para o verdadeiro reconhecimento do “nós” – sempre maior e mais estranho do que supomos, pronto para revelar o que não gostamos uns nos outros. Essa exigência de abertura e ampliação da voz que ainda não possuímos em comum (e que só vamos conquistar juntos) tem sido mais do que uma espécie de assombração hegeliana a pairar sobre as ruínas da modernidade, tem sido o maior desafio para um genuíno processo de descolonização da ética em direção a uma imagem menos familiar de si mesma – qualquer que seja, aqui e ali, a sua venerável desculpa. A justiça é sempre esse excesso de responsabilidade perante a imobilidade complacente do espelho. 

O homem na multidão

(Isabel Wilkerson)

“Existe uma famosa imagem em preto e branco da época do Terceiro Reich. É uma foto tirada em 1936 em Hamburgo, na Alemanha, com cem ou mais operários portuários, todos olhando na direção do sol. Eles fazem uma saudação em uníssono, com o braço direito rigidamente estendido declarando lealdade ao Führer.

Olhando com atenção, podemos ver um homem no canto superior direito que se diferencia dos outros. Seu rosto tem uma expressão calma, mas inflexível. As reproduções modernas dessa foto costumam acrescentar um círculo vermelho em volta do homem ou uma flecha apontando para ele. Ele está cercado por concidadãos que caíram sob o fascínio dos nazistas. Mantém os braços cruzados no peito, a poucos centímetros das mãos estendidas dos demais. Só esse homem se recusa a fazer a saudação.  É o único que se levanta contra a corrente.

Olhando em retrospecto, é a única pessoa em toda a cena que está no lado certo da história. Todos ao redor estão tragicamente, fatidicamente, categoricamente errados. Naquele momento, só ele conseguia enxergar isso.

(…)

(…)

Num regime totalitário como o do Terceiro Reich, erguer-se contra todo um oceano constituía um ato de bravura. Todos nós queremos crer que faríamos o mesmo. Temos a certeza de que, se fôssemos cidadãos arianos sob o Terceiro Reich, sem dúvida enxergaríamos mais além, nos ergueríamos como ele, seríamos aquela pessoa que, diante da histeria da massa, resistira ao autoritarismo e à brutalidade.

Queremos crer que tomaríamos o caminho mais difícil de se postar contra a injustiça, em defesa dos párias. Mas, a menos que todos nos dispuséssemos a vencer nossos medos, a suportar o desconforto e a ridicularização, a sofrer o escárnio de parentes, vizinhos, amigos e colegas de trabalho, a cair em desgraça entre talvez todos os nossos conhecidos, a enfrentar a exclusão e até a expulsão, seria numericamente impossível, humanamente impossível, que todos nós fôssemos aquele homem. Qual o custo de sê-lo em qualquer época? Qual o custo de sê-lo agora?”

(WILKERSON, Isabel. Casta – As origens do nosso mal-estar. Rio de Janeiro: Zahar, 2020)   

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