A matriz – arqueologia moral do umbigo

Umbigo é a cicatriz/musa que nos lembra que nascemos sob o signo de uma radical separação. Assim deixamos o aconchego do útero, onde todo bem-estar é gratuito, para ingressarmos num meio muito mais exigente, a começar pelo primeiro esforço imposto pela necessidade da respiração autônoma. De repente, não carregamos mais conosco o fio que nos ligava à satisfação imediata das nossas necessidades, mas sim o resíduo fisiológico que se oculta no vestígio de uma afecção nostálgica, espécie de saudade do calor uterino em cujo abrigo se imprimiu em nós a experiência do nosso mais comum lar ancestral. Como ignorar a relevância desse traumático acontecimento, exposto na ruptura do vínculo umbilical, para uma genuína arqueologia da moralidade? Como negligenciar a importância de um vir a ser tão trágico e delicado, como é o nascimento humano, onde o tornar-se só se torna possível quando já se conforma também à condição de estar partido? Não seria essa a contradição fundamental vivida pela própria atividade do corpo e que culmina em algum senso de justiça, isto é, nos juízos que acabamos fazendo sobre o que é ou não “nosso”? Donde a questão ética fundamental: como suprir a falta que há em toda parte porque nunca falha em justamente nos fazer caber nela? 

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Devo confessar que o texto acima foi concebido quase como uma “revelação”, se por isto pudermos entender também um fenômeno similar àquilo que antigos filósofos denominaram de “espanto”. Pois foi isso: espantei-me com o fato de uma discreta desatenção geral a respeito daquilo que me parece cobrir precisamente as implicações éticas mais significativas de um dado ontogenético fundamental: o próprio nascimento! Mas quis o acaso (ou quem sabe o destino) que cruzasse o meu caminho a monumental obra de Peter Sloterdijk (Esferas I: bolhas, Estação Liberdade, 2016), cujas reflexões me fizeram perder, sem ressentimentos, qualquer pretensão de “originalidade” acerca do que suscitou em mim a exclamação da “descoberta” – exceto talvez pela inferência a que permaneço fiel quanto às origens igualmente “primevas” da moralidade. Afinal, já pensava comigo: se esta última diz respeito sobretudo à nossa capacidade de julgar, então é preciso começar por algo que testemunhe antes a existência da nossa imemorial terra natal, algo como uma autêntica “umbigologia”, e não pela ideia de uma “faculdade cognitiva” somente inteligível à luz de descrições já há muito esquecidas do complexo processo ecobiogênico de cada organismo individual humano. Por essa razão, decidi apresentar a seguir alguns trechos desse filósofo contemporâneo que tão delicadamente puxou os fios dessa mesma trama primordial (em que pese o choque de inevitáveis “desencontros teóricos” com o resto de sua obra!) para tecer, de modo mais cuidadoso ainda, as críticas e considerações de uma tese que, para mim, tem sido até aqui um verdadeiro sopro de vivacidade:

“É um dos segredos mais bem divulgados da primeira psicanálise vienense que, tanto em seu arranjo terapêutico como em sua armadura conceitual, ela se deteve a meio caminho em sua penetração no mundo intersubjetivo da proximidade. Pode-se, com razão, em pontos essenciais, censurar-lhe o fato de ter construído, tanto na teoria quanto na prática, um sistema apto a repelir as experiências de proximidades indesejáveis que ela, por sua própria disposição, era forçada a invocar. Nas últimas décadas, o cientificismo obstinado de Freud foi muitas vezes alvo de uma crítica baseada, em parte, numa perspectiva da teoria da ciência, na medida em que conduzia à prova de que a análise vienense havia descrito erroneamente seu próprio estatuto teórico e pretendido, de maneira forçada, aproximar ao modelo das ciências naturais uma disciplina que se ligava à hermenêutica cênica, à teoria da linguagem e às ciências do vivido; e, em parte, se baseava em expressões psicodinâmicas, tentando mostrar por quais manobras e com base em quais motivos obsessivos – sobretudo provenientes de fontes matrifóbicas – o fundador da psicanálise vienense havia evitado os estratos profundos mais inquietantes do campo das relações íntimas para o qual acabara de prover uma nova descrição. Mas todas essas críticas podiam acomodar-se ao interior da elástica abordagem do modelo freudiano e eram capazes de ser integradas mais ou menos docilmente por um movimento psicanalítico disposto a aprender.

Em outro front, entretanto, armou-se uma crítica essencialmente mais radical, cujo desenvolvimento não havia sido antevisto nem pelas críticas imanentes, nem pelas críticas externas da psicanálise. Ela nasce da ligação entre a pesquisa recente sobre a pré-natalidade e os deslocamentos conceituais das mais novas filosofias dos meios de comunicação. O filósofo da cultura e antropólogo Thomas Macho provou, conclusivamente, nesse contexto, um erro fundamental da conceituação psicanalítica no que concerne às relações arcaicas e pré-natais entre a mãe e a criança. Pode-se mostrar, de fato, que as ideias da psicanálise sobre as primeiras comunicações formulam-se, sem exceção, segundo o modelo das relações objetais – particularmente nos conceitos da assim chamada teoria das fases do desenvolvimento, na qual, a cada vez, um órgão considerado precursor do sujeito é atrelado a uma dimensão do mundo exterior tomada como um polo objetivo: na fase oral, a boca com o seio; na fase anal, o ânus com o excremento; na fase genital, o pênis com a mãe (…). Sabe-se que Freud colocava a fatídica necessidade dessa terceira fase acima de todo o resto, porque, segundo sua convicção, é nela que se realizaria a genuína individuação, como formação da subjetividade sexual oriunda do conflito triangular edipiano. Nela se completa, segundo a teoria ortodoxa, a maturidade psíquica objetal, que já está destinada à criança – desde o momento em que toma pela primeira vez o seio materno – como objetivo de desenvolvimento culturalmente obrigatório e organicamente plausível. Macho mostrou, ao contrário, que toda a conceitualização psicanalítica das primeiras relações está fundamentalmente deformada pelo preconceito do objeto (…). Seria, por isso, um empreendimento vão, para não dizer patogênico, querer descrever a realidade primordial mãe-criança na forma de conceitos de relação com um objeto, porque aqui, nas coisas elas próprias, não há ainda em parte alguma relações entre sujeito e objeto. (…) Aos objetos que, como os já mencionados, não são de fato objetos, pois a eles não corresponde nada que esteja diante de um sujeito, Macho denomina de nobjetos: trata-se de entidades dadas de maneira esfericamente envolvente que, ao modo de presença não confrontativa, planam como seres originários de proximidade, no sentido literal do termo, diante de um si que não lhes faz face, precisamente o pré-sujeito fetal. Seu estar-aqui-perto (que não é ainda um estar-aí-demonstrável) se transmite à criança sobretudo pelo primeiro dom que lhe é feito: o sangue placentário. (…) O sangue, que, sendo sangue de um, torna-se mesmo assim o sangue de outro, funda o primeiro ‘elo’ medial entre parceiros da díada, íntima e bipolarmente imbricados. Através do sangue, a biunidade é concebida, de antemão, como uma entidade trinitária: o terceiro faz de dois um. (…)” (p. 267-270).

“Naturalmente, mesmo nos tempos modernos, corta-se por toda parte o cordão umbilical segundo as regras da técnica; ainda hoje, o umbigo forma sobre o corpo do sujeito o hieróglifo do drama de sua individuação. Mas o umbigo perdeu seu pensamento, sua melodia, sua questão. O umbigo moderno é um nó de resignação, e seus proprietários não sabem como lidar com ele. Não compreendem que ele é o rastro de Eurídice, o monumento de sua retirada e de seu desaparecimento. Dele decorre, na origem, tudo o que se fala ou que se entoa com decisão. Sobre o corpo simbolicamente vivo, ele atesta a possibilidade de se apartar das comunhões de sangue para ingressar no mundo da respiração, das bebidas e das palavras – em uma esfera, portanto, que um dia se desdobrará, no caso mais favorável, em comunidades de mesa e sociedades reconciliadas. Na modernidade, os próprios poetas ignoram que toda linguagem é uma música da separação: falar é cantar através do cordão umbilical (…).

Nosso réquiem para o órgão perdido começa, portanto, com uma exigência de clareza. Pensar o Com significa, em primeiro lugar, decifrar o hieróglifo de sua separação, o umbigo. Caso tenha sucesso em renovar a psicologia por meios filosóficos, seu primeiro projeto deveria ser uma hermenêutica do umbigo – ou, para falar um pouco de grego e de metafísica, uma onfalodiceia. Do mesmo modo que a teodiceia é a justificação da linguagem em face das desgraças do mundo, a onfalodiceia é a justificação da linguagem que quer constantemente alcançar o outro, ante o cordão umbilical rompido e de seu rastro no próprio corpo.” (p. 353-354)

“Como indivíduos, os seres humanos são constituídos por um corte separador que, regra geral, não os distancia tanto da mãe, mas, antes, do gêmeo anônimo. É de esperar, portanto, que se constitua no indivíduo, como sujeito residual desconectado, desirmanado, desenraizado, além do umbigo físico, um umbigo psíquico e simbólico, ou, mais exatamente, um campo umbilical onde permanecem gravados os rastros de lembrança que datam da fase formativa do suplemento placentário. Ao que parece, o sujeito por vir só pode se desenvolver integralmente, como o que ele próprio é, se for possível relacioná-lo com o substrato de uma vida paralela que lhe esteja intimamente ligada e da qual lhe afluam sinais revigorantes, protetores e proféticos, que lhe prometam uma prosperidade na comunhão e na liberdade.” (p. 359)

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  1. […] “Umbigo é a cicatriz/musa que nos lembra que nascemos sob o signo de uma radical separação. Assim deixamos o aconchego do útero, onde todo bem-estar é gratuito, para ingressarmos num meio muito mais exigente, a começar pelo primeiro esforço imposto pela necessidade da respiração autônoma. De repente, não carregamos mais conosco o fio que nos ligava à satisfação imediata das nossas necessidades, mas sim o resíduo fisiológico que se oculta no vestígio de uma afecção nostálgica, espécie de saudade do calor uterino em cujo abrigo se imprimiu em nós a experiência do nosso mais comum lar ancestral. Como ignorar a relevância desse traumático acontecimento, exposto na ruptura do vínculo umbilical, para uma genuína arqueologia da moralidade? Como negligenciar a importância de um vir a ser tão trágico e delicado, como é o nascimento humano, onde o tornar-se só se torna possível quando já se conforma também à condição de estar partido? Não seria essa a contradição fundamental vivida pela própria atividade do corpo e que culmina em algum senso de justiça, isto é, nos juízos que acabamos fazendo sobre o que é ou não “nosso”? Donde a questão ética fundamental: como suprir a falta que há em toda parte porque nunca falha em justamente nos fazer caber nela? (…).” (FORTES, P. A matriz – arqueologia moral do umbigo – Pablo Dias Fortes) […]

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