Trechos inesquecíveis – Michael Walzer

“Começarei com a soberania, o controle político, o processo decisório oficial – o alicerce conceitual do Estado moderno. A soberania não esgota o campo do poder, mas concentra nossa atenção na forma mais significativa e perigosa que o poder pode assumir, pois não é apenas um dentre os bens que homens e mulheres almejam; na forma de poder de Estado, também é o meio pelo qual são regulados todos os outros anseios, o do próprio poder inclusive. É a iniciativa fundamental da justiça distributiva; protege suas fronteiras, dentro das quais são distribuídos e implantados todos os bens sociais. Donde os requisitos simultâneos de que o poder seja sustentado e que seja inibido: mobilizado, dividido, contrabalançado. O poder político protege-nos da tirania… e ele mesmo se torna tirânico. E é por esses dois motivos que o poder é tão desejado e se luta incessantemente por ele.

Grande parte das lutas é extra-oficial, as pequenas escaramuças guerrilheiras da vida cotidiana, por meio das quais nós (os cidadãos comuns) nos defendemos ou lutamos pela revisão das fronteiras das diversas esferas distributivas. Tentamos evitar ultrapassagens ilegítimas; fazemos acusações, organizamos protestos, às vezes até tentamos o que se pode chamar, em regimes democráticos instituídos, de ‘embargo cidadão’. Mas nosso último recurso em todas essas ocasiões, que não seja à revolução, é ao poder do Estado. Nossos governantes, os agentes da soberania, têm muito o que fazer (e desfazer). Em sua capacidade oficial eles são, e têm de ser, ativos por toda parte. Acabam com os títulos hereditários, reconhecem heróis, pagam pelas acusações – mas também pela defesa – dos criminosos. Vigiam o muro entre a Igreja e o Estado. Legislam sobre a autoridade dos pais, providenciam casamentos civis, determinam pagamentos de pensões. Definem a jurisdição da escola e exigem a frequência das crianças. Declaram e cancelam feriados públicos. Decidem como se deve recrutar o exército. Garantem a justiça dos concursos para o funcionalismo público e dos exames profissionais. Bloqueiam negócios ilegítimos, redistribuem a riqueza, facilitam a organização de sindicatos. Definem a abrangência e o caráter da provisão comunitária. Aceitam e rejeitam candidatos à afiliação. E, por fim, em todas as atividades, restringem seu próprio poder; sujeitam-se aos limites constitucionais.

Ou é o que deveriam fazer. Agem ostensivamente por nós ou em nosso nome (sem nosso consentimento). Mas, na maioria dos países e na maior parte do tempo, os governantes funcionam, de fato, como agentes dos maridos e dos pais, das famílias aristocráticas, dos diplomados ou dos capitalistas. O poder do Estado é colonizado pela riqueza, pelo talento, pelo sangue, ou pelo sexo; e, depois de colonizado, raramente é limitado (…).”

 

(Michael Walzer. Esferas da justiça: uma defesa do pluralismo e da igualdade. São Paulo: Martins Fontes, 2003; págs. 385-386)