Algumas considerações epistemológicas sobre uma eventual classificação da produção científica em saúde coletiva

(…) toda taxonomia requer o princípio da menor diferença possível entre as coisas para se sustentar. Entretanto, é graças ao que resiste às leis da taxonomia, ou seja, à diferença, que tais sistemas estão sempre em processo de reformulação, revelando sua insuficiência e precariedade.

Maria Esther Maciel

 

Todas as vezes que estamos diante da necessidade de estabelecer uma classificação, seja pelo surgimento de um novo objeto de estudo, pelo ensejo de uma nova abordagem, ou mesmo por algum grau de insuficiência apresentado na utilização de critérios já conhecidos, impõe-se para nós a tarefa de reavaliarmos o sentido do próprio ato classificatório, de tal modo que, ao conhecermos melhor suas razões (ou quem sabe suas desculpas!), não tornemos ainda mais forte a ilusão segundo a qual a integridade do discurso científico nada deve à reflexão epistemológica enquanto uma espécie também de “psicanálise do conhecimento objetivo” (BACHELARD, 2008, pág. 15).

Sob esse aspecto, um ponto de partida promissor consiste em não ignorarmos o espaço em que se move todo e qualquer ato classificatório, confinado que está estruturalmente nas dinâmicas nem sempre conscientes que constituem a relação “sujeito-objeto”. Por isso, mais do que o problema puro e simples da definição de critérios, importa saber que, em matéria de classificação, mesmo o mais rigoroso ato de dispor um conjunto de elementos segundo um ordenamento baseado em categorias discerníveis entre si pressupõe também a ação de um olhar já codificado (FOUCAULT, 2002, pág. XVII), sem o qual as “grandezas” de um fenômeno ou as “propriedades/atributos” de um objeto não poderiam sequer motivar uma escolha.

Com efeito, refletir epistemologicamente sobre o ato classificatório implica levar às últimas consequências a pergunta sobre os fundamentos constituintes do olhar científico, cuja natureza encerra as condições que tornam possível o ato mesmo de observar. Essas condições nunca estão dadas pela “realidade em si” dos objetos, pois encontram-se já em movimento no arsenal conceitual, metodológico e linguístico que dita as expectativas de quem observa. No livro Cognição, Ciência e Vida Cotidiana, o biólogo chileno Humberto Maturana define tal movimento como “objetividade entre parênteses” (MATURANA, 2001, pág. 35). Ela está “entre parênteses” porque os requisitos de sua validade científica não são determinados pelo suposto caráter “autônomo” dos fenômenos, mas pela estrutura relativamente estável da própria linguagem empregada no âmbito de uma comunidade epistêmica. Nesse sentido, tanto as práticas reguladas por padrões técnicos já conhecidos quanto aquelas que representam uma “transição paradigmática” (KUHN, 2006, pág. 116) dependeriam igualmente de um regime de convalidação entre pares. No limite, isso significa reconhecer a presença de valores não científicos como fator também de legitimação da ciência, fato este amplamente conhecido como um dos componentes das leis do seu funcionamento (NUNES, 2010, pág. 266).

As considerações feitas até aqui introduzem então uma série de problemas: afinal, como fazer da produção científica um objeto, ela mesma, de “representação científica”? Como classificá-la na hipótese de reunir saberes tão heterogêneos em termos epistemológicos? Como resolver a questão de um ordenamento capaz de assumir a justaposição de perspectivas e métodos tão distintos? Como garantir, enfim, uma hierarquização que satisfaça a todos?

Como se pode notar, essas questões não têm nada de trivial. Elas refletem, no fundo, as contingências relativas à própria história da divisão do trabalho científico. Apesar das aparências, esta última não se deu (nem costuma ocorrer) por meio de planejamentos metodológicos prévios, e sim pela configuração de rupturas e descontinuidades de cunho quase sempre “indisciplinar”, dentro das quais processos não controlados de transmissão de ideias tendem a favorecer também a precipitação de novos domínios disciplinares (MORIN, 2003, pág. 107). Em tais circunstâncias, as fronteiras que separam um saber do outro não devem ser interpretadas como um desdobramento natural do chamado “método científico”, mas como recortes orientados por novos interesses investigativos que, em nome justamente dele, passam a pleitear também um “lugar” na galeria das classes científicas. Em outras palavras, se o que está em jogo é o estabelecimento de uma representação consequente da produção científica, então a primeira dificuldade que devemos estar conscientes consiste na impossibilidade absoluta de efetuarmos uma descrição que faça totalmente justiça às irregularidades históricas que ela comporta, isto é, sendo simplesmente ingênuo pensar que, sob a frieza indiferente dos critérios, possa-se domesticar as diferenças que caracterizam a verdadeira natureza da prática científica.

Não obstante, parece evidente que tal dificuldade não significa que devemos declinar do esforço em busca de uma orientação razoável. Assim, ainda que diante de elementos teoricamente incompatíveis e/ou metodologicamente incomparáveis, é possível caminhar na direção de uma autêntica curadoria epistemológica. Para tanto, é sensato admitir que, na arbitragem dos critérios que serão mobilizados, o desafio da classificação da produção científica envolva também uma articulação múltipla de olhares, de tal maneira que as categorias daí resultantes expressem um reagrupamento em novas classes de sentido. Esse exercício pode assumir, por sua vez, diferentes ângulos e pontos de vista, a depender das lógicas institucionais com as quais os agentes científicos estão também comprometidos. Em um curioso estudo intitulado Organização e Representação do Conhecimento em Ciência no Brasil: as Seções de Comunicações apresentadas às Reuniões Anuais da SBPC no período 1956 – 2001, Souza et al dão testemunho, por exemplo, de como diferentes propostas de classificação da ciência brasileira foram sendo propostas no âmbito da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC):

“A análise das tabelas de classificação da SBPC revelaram diferentes tentativas de mudanças de estrutura do universo do conhecimento em ciência, na tentativa de acompanhar o seu desenvolvimento no país, como visto através da indexação por assunto das comunicações de pesquisa apresentadas às Reuniões anuais da Sociedade no período 1956-2001. Essas mudanças ocorreram no contexto de uma estrutura de classificação inicialmente enumerativa de áreas do conhecimento nas décadas de 60 e 70, tendendo a uma estrutura hierárquica nas décadas de 80 e 90, evidenciando categorizações de ‘tipo de’ na presente década”. (SOUZA et al, 2003)

No caso da produção científica aqui em discussão, ou seja, aquela concernente ao campo da saúde coletiva, fica claro que tal exercício deve começar por colocar em questão a centralidade presumida das ciências da saúde, em torno das quais outros campos científicos acabam por servir apenas de esferas subsidiárias ou, na pior das hipóteses, como meras “ferramentas”. Ao mesmo tempo, na medida em que o princípio da interdisciplinaridade – independentemente dos imensos desafios metodológicos que ele implica – vai se consolidando como um valor da prática científica, impõe-se ainda a questão de como classificar o conhecimento sem com isso comprometer também a identidade de práticas cujos métodos, técnicas e procedimentos estão estruturados por uma relativa unidade e independência teórica.

Conforme já sinalizamos, uma alternativa razoável para escaparmos desse impasse sugere a adoção de uma distribuição de olhares na qual a saúde coletiva, ainda que um assunto de recorte nitidamente sanitário, seja também compreendida em função do interesse que ela desperta (ou poderia despertar!) em diferentes domínios disciplinares. A rigor, isso exige a combinação de uma diversidade de perspectivas em busca de um consenso criterioso a respeito não somente de quais enunciados correspondem melhor ao conteúdo da produção[1], mas também de que enfoques e abordagens estão invisíveis ou ausentes. Quanto a isso, felizmente, nada mais resta de epistemologia, senão uma última lição filosófica contida nas sábias palavras de Jean Ladrière:

“(..) o próprio dever da ciência, considerado por si mesmo, é assegurar o livre exercício de sua normatividade epistêmica. Nós podemos ver em tal princípio uma ética interna para a ciência”. (LADRIÈRE, 2001, pág. 150)

 

 

Referências

BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

CAMARGO JR, Kenneth Rochel de; COELI, Claudia Medina; CAETANO, Rosângela e MAIA, Vanessa Rangel. Produção intelectual em saúde coletiva: epistemologia e evidências de diferentes tradições. Rev. Saúde Pública [online]. 2010, vol.44, n.3, pp.394-398.

FOUCAULT, Michel. As Palavras e as Coisas: uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

KUHN, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva, 2006.

LADRIÈRE, Jean. Ética e Pensamento Científico. São Paulo: Letras & Letras, 2001.

MATURANA, Humberto. Cognição, Ciência e Vida Cotidiana. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2001.

MACIEL, Maria Esther. Do inclassificável e das classificações. In: Indisciplinares (Coleção Ensaios Brasileiros Contemporâneos). BOSCO, Francisco; SOCHA, Eduardo e AGUIAR, Joselia (orgs.). Rio de Janeiro: Funarte, 2016.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

NUNES, João Arriscado. O resgate da epistemologia. In: Epistemologias do Sul.  SANTOS, Boaventura de Sousa e MENESES, Maria Paula (orgs.). São Paulo: Cortez, 2010.

SOUZA, Rosali Fernandez de; FERREIRA, Carlos Alberto; CARVALHO, Rosângela Silva e SILVA, Roberta Pereira da. Organização e representação do conhecimento em ciência no Brasil: as seções de comunicações apresentadas às reuniões anuais da SBPC no período 1956-2001. In: Encontro Nacional de Pesquisa em Ciência da Informação, 5.: 2003 : Belo Horizonte. Anais do V ENANCIB. Belo Horizonte: UFMG, 2003.

 

[1] Método semelhante foi aplicado por Camargo Jr. KR et al (2010) a propósito de uma análise sobre a produção intelectual em saúde coletiva. Para maiores informações, ver CAMARGO JR, Kenneth Rochel de; COELI, Claudia Medina; CAETANO, Rosângela e  MAIA, Vanessa Rangel. Produção intelectual em saúde coletiva: epistemologia e evidências de diferentes tradições. Rev. Saúde Pública [online]. 2010, vol.44, n.3, pp.394-398.